Ler Caio F. atualmente é algo que não é mais necessário: para conhecer sua obra basta criar uma conta em uma rede social. Uma onda de novos fãs tem surgido e transformado sua obra em versículos disseminados pela internet. O contexto não é mais necessário, apenas o impacto. Fazendo uma busca rápida encontramos dezenas de contas fake do autor no Twitter transformando sua obra em doses de 140 caracteres. No Facebook se dá da mesma forma: aplicativos te dão uma dose diária de Caio F. sem precisar ter contato algum com a obra do autor. Sem falar em frases colocadas nos perfis ou repetidas como jargão sem reflexão alguma.
Sou a favor da disseminação da cultura e da digitalização de livros. É uma forma eficaz de termos acesso a bens culturais de forma gratuita e prática. O preço de livros no Brasil é alto e pouquíssimas pessoas tem condições de pagar para manter uma boa quantidade de leitura. Uma proposta interessante é o blogue http://semamorsoaloucura.blogspot.com que disponibiliza a obra completa do autor para leitura online.
Ser cult é status atualmente e ser leitor idem. Caio Fernando Abreu é um escritor que está na moda nos últimos anos. Não vejo isso de forma negativa, acho melhor que ele seja lido do que muitas outras coisas que vendem como água. Os textos de Caio são bons, são profundos e muitos mostram preocupações sociais e questões bem atuais. Status é dado por aparência atualmente, conhecimento não anda em alta.
Não vejo grandes problemas em citações. São belas e te instigam a conhecer, mas suspeito que esse mar de citações atuais de Caio não são de leitores ávidos. Comprovamos isso olhando listas de livros mais vendidos no Brasil e não o vendo em nenhuma delas, entretanto o vemos como mais citado em pequenas frases de impacto. A obra é um todo, caso fosse configurada só por trechos, seria publicada dessa forma. Por favor, tenham suas pequenas epifanias, mas tenham refletindo e não enchendo timelines de frases vazias. Caio Fernando Abreu não é auto-ajuda.
Marcello,
ResponderExcluirO mesmo preocupante fenômeno tem se dado com diversos outros escritores essencialmente densos, arbitrariamente transformados em pílulas de consumo diário. Clarice Lispector, José Saramago. Mais preocupante ainda são e-mails que circulam com mensagens atribuídas a esses autores, mas escritas em linguagem ou expressando ideologias totalmente inconsistentes com as respectivas vozes autorais. Já recebi um e-mail sobre filhos atribuído ao Saramago em que ele teria dito que filhos são um empréstimo de Deus. Ora, Saramago era visceralmente ateu, combativamente ateu, fundamentadamente ateu. Também me contorci com aquela edição da Rocco intitulada "Clarice Lispector - Correio Feminino" de capa e letras lilás. Nada pode ser menos clariciano do que aquilo.