quarta-feira, 4 de maio de 2011

Escrever no século do vazio

Depois de tentar a conotação em outros espaços e momentos, venho aqui me lamentar denotativamente. Lamentar sim. Minha namorada mantém um blogue chamado O bonito do cotidiano, poderia até tentar, mas não saberia escrever sobre o bonito do cotidiano. Não digo que o bonito não exista mais ou não se passa em meu cotidiano, entretanto, concordo com Clarice Lispector, escrever é uma pena árdua. Ao chegar ao final da vida, Kafka teve uma espécie de surto e afirmou que não se poderia escrever sobre outro tema que não fosse sobre a escrita em si. Vejo na atitude de Kafka, uma espécie de megalomania típica de grandes escritores que não obteram o reconhecimento esperado em sua época e um sintoma da escritura atual. No romance Bartleby e Companhia, Enrique Vila-Matas, usando como inspiração a personagem singular de Herman Melville, trata de escritores que, segundo ele, carregam a síndrome de bartleby. Esta consiste em uma negação a escrita que pode ser categorizada seguindo vários critérios. Alguns escritores, após a publicação de uma grande obra, simplesmente abandonam a escrita alegando os mais diversos motivos; outros têm muito a falar, entretanto se resignam a nunca publicar obra alguma, alguns negam a própria obra, uma parcela de escritores são copistas ou escrevem apenas notas de rodapé em lugar de uma obra em si. A síndrome de bartleby é facilmente diagnosticada: consiste em uma negação da escrita. O texto de Vila-Matas em si não se passa de uma obra escrita por um narrador detentor de tal síndrome. Seria leviano, reducionista e até contraditório alegar que a literatura atual é representada por milhões de bartlebys.
Pensando de forma pragmática, é impossível não observar uma ruptura paradigmática na literatura que vem surgindo nos últimos decênios. Podemos elencar diversos aspectos em que essa alteração se deu: estético, forma, conteúdo, entre outros. Muitos afirmam fim da literatura, mas tento ser aqui uma espécie de personagem pessoa-livro de Bradbury vendo que a literatura salvará a si mesma e é condicionante na formação social atual e na que virá. O dilema do cultural determinante da sociedade e vice-versa nesse aspecto, eles se encontram imbricados e a literatura segue essa regra. Ítalo Calvino já defendeu com maestria a importância de ler os clássicos e não pretendo me opor a sua tese. No seu primeiro argumento já elimina qualquer possibilidade de refutação: "ler os clássicos é melhor que não os ler". Indago, por que ler os contemporâneos?
Não é necessária uma análise social aprofundada, com critérios científicos extremos e nem ter o maior senso de observação para se diagnosticar a velocidade das transformações na sociedade atual se comparada aos séculos anteriores. Critica-se uma cultura esvaziada ao mesmo tempo que pouco se faz para compreendê-la e pensá-la em suas especifidades. Acusa-se a literatura atual de vazia e procura-se grandes temas ou imagens que guiaram a produção literária universal. Voltando a imbricação da sociedade e cultura, poderia argumentar de forma reducionista que uma sociedade esvaziada é reflexo de uma cultura esvaziada e vice-versa e bastaria o argumento por si só, mas não vou fazê-lo. James Joyce trata de um dia em um volume quase enciclopédico (falando estritamente em dimensão) fazendo pouquíssimas descrições à la estilo pré-modernismo europeu e é considerado gênio. Fala-se em fim da vanguarda tendo essa como ideal a ser atingido para uma valoração artística. O esvaziamento não se dá, o antropocentrismo se exarceba e passa a ser individualismo em graus mais profundos. A reprodução adquire proporções gigantescas e assim afirmam, com olhares maliciosos, os críticos, o fim da arte de uma maneira nada relativista. E ainda pior, de uma maneira anacrônica. Criticos estes que idolatravam o lobo da estepe como ícone cult em suas adolescências e agora esquecem o cerne da discussão abordada por Hesse.
O papel da literatura não é dizer o que nunca foi dito e a nova geração de escritores que surge tem cosciência desse fato. Não estou fazendo apologia ao piegas ou a falta de originalidade, pelo contrário, a literatura do novo século que aponta é carregada de sentidos já consolidados. O que é acusado de reprodução, atualmente, é componente de um período em que o acesso à literatura se dá de forma cada vez mais fácil e sem dificultadores. Critica-se a facilidade de publicar pensamentos atualmente, entretanto sempre foi criticada as dificuldades em se expressar e a elitização da arte. Não foi necessário decorar um livro inteiro para que se impedisse que a literatura morresse, a internet já demonstrou contrariamente aos apocalípticos. Pensar de maneira sincrônica é pensar no mundo enquanto tal é hoje, sem desconsiderar o caminho percorrido para o estado atual. Os deuses olímpicos, as grandes musas e a relação com a natureza de hoje são outdoors, prostitutas quaisquer e fumaça esvoaçante juntamente com o que foram outrora. Bartlebys não são personanges de agora, Vila-Matas os aponta ao longo da história da literatura. Talvez eu seja um enquanto escrevo esse texto e uso da reprodução para argumentar sem ter lido referência alguma supracitada e lançado mão do sistema de buscas para lê-los para mim. Escrever atualmente não é escrever perante o vazio, é escrever perante a incerteza. Por que não os ler?

Um comentário:

  1. Vou a fazer um pouco de hetero-ajuda, porque literario não me sinto hoje.

    Acho que o contraponto natural dos Baterblys está noutro livro de Vila-Matas, aquele da "Historia abreviada da literatura portatil" (pergunta a Vini, ele ganhou um recentemente). Se nos Baterblys o paradigma era Kafka, um cara que é um buraco preto hermenéutico tanto na sua vida como nos seus escritos, na conspiração dos Shandys o paradigma e Walter Benjamin. Kafka era, a todos os efeitos, um desgraçado. Um Fausto hipertrofiado, e nem sequer com a majestuosidade de Goethe conversando com Napoleão ("voilá une homme!"), onde os dois se achavam gigantes com os seus sonhos ao alcance da mão (lembro as correspondências de Goethe depois de acabar o Fausto, algo assim como "agora que acabei a minha missão, o que me queda de vida é um regalo"). Em Kafka, não há descanso, cada retoque empiora a obra, que de fato já está ruim. Se habita fechado na madrigueira que se reconstrui o tempo tudo, não há viagems, não há passeios no exterior. A última vontade de Kafka a Max Brod: "queima todo". Renunciar a escrever é uma metonimia: esta-se é renunciando a viver.

    Os shandy da "historia abreviada..." são flaneurs. Despreocupados. Não estam nem ahi. Algo como Lawrence Stern o Felix Krull. O importante não é a obra, é a vida (uma vida entendida estéticamente, claro). Mas convertidos os autores em obras, quem são os autores dos autores? O caos, o acaso, a incerteza, o tempo, a gente, a cidade, etecé. (Redes latourianas?). (O homem é multitude e as multitudes são mutantes).

    Casualmente, tirei hoje da biblioteca do CES um livro de Benjamin, "A modernidade e os modernos", no que dedica um largo ensaio a Kafka. Começa assim: "A imagem do artista de Baudelaire aproxima-se da imagem do héroi". Vou ver como segue, acho que ja vai o flaneur, depois te conto...

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