Depois de tentar a conotação em outros espaços e momentos, venho aqui me lamentar denotativamente. Lamentar sim. Minha namorada mantém um blogue chamado O bonito do cotidiano, poderia até tentar, mas não saberia escrever sobre o bonito do cotidiano. Não digo que o bonito não exista mais ou não se passa em meu cotidiano, entretanto, concordo com Clarice Lispector, escrever é uma pena árdua. Ao chegar ao final da vida, Kafka teve uma espécie de surto e afirmou que não se poderia escrever sobre outro tema que não fosse sobre a escrita em si. Vejo na atitude de Kafka, uma espécie de megalomania típica de grandes escritores que não obteram o reconhecimento esperado em sua época e um sintoma da escritura atual. No romance Bartleby e Companhia, Enrique Vila-Matas, usando como inspiração a personagem singular de Herman Melville, trata de escritores que, segundo ele, carregam a síndrome de bartleby. Esta consiste em uma negação a escrita que pode ser categorizada seguindo vários critérios. Alguns escritores, após a publicação de uma grande obra, simplesmente abandonam a escrita alegando os mais diversos motivos; outros têm muito a falar, entretanto se resignam a nunca publicar obra alguma, alguns negam a própria obra, uma parcela de escritores são copistas ou escrevem apenas notas de rodapé em lugar de uma obra em si. A síndrome de bartleby é facilmente diagnosticada: consiste em uma negação da escrita. O texto de Vila-Matas em si não se passa de uma obra escrita por um narrador detentor de tal síndrome. Seria leviano, reducionista e até contraditório alegar que a literatura atual é representada por milhões de bartlebys.
Pensando de forma pragmática, é impossível não observar uma ruptura paradigmática na literatura que vem surgindo nos últimos decênios. Podemos elencar diversos aspectos em que essa alteração se deu: estético, forma, conteúdo, entre outros. Muitos afirmam fim da literatura, mas tento ser aqui uma espécie de personagem pessoa-livro de Bradbury vendo que a literatura salvará a si mesma e é condicionante na formação social atual e na que virá. O dilema do cultural determinante da sociedade e vice-versa nesse aspecto, eles se encontram imbricados e a literatura segue essa regra. Ítalo Calvino já defendeu com maestria a importância de ler os clássicos e não pretendo me opor a sua tese. No seu primeiro argumento já elimina qualquer possibilidade de refutação: "ler os clássicos é melhor que não os ler". Indago, por que ler os contemporâneos?
Não é necessária uma análise social aprofundada, com critérios científicos extremos e nem ter o maior senso de observação para se diagnosticar a velocidade das transformações na sociedade atual se comparada aos séculos anteriores. Critica-se uma cultura esvaziada ao mesmo tempo que pouco se faz para compreendê-la e pensá-la em suas especifidades. Acusa-se a literatura atual de vazia e procura-se grandes temas ou imagens que guiaram a produção literária universal. Voltando a imbricação da sociedade e cultura, poderia argumentar de forma reducionista que uma sociedade esvaziada é reflexo de uma cultura esvaziada e vice-versa e bastaria o argumento por si só, mas não vou fazê-lo. James Joyce trata de um dia em um volume quase enciclopédico (falando estritamente em dimensão) fazendo pouquíssimas descrições à la estilo pré-modernismo europeu e é considerado gênio. Fala-se em fim da vanguarda tendo essa como ideal a ser atingido para uma valoração artística. O esvaziamento não se dá, o antropocentrismo se exarceba e passa a ser individualismo em graus mais profundos. A reprodução adquire proporções gigantescas e assim afirmam, com olhares maliciosos, os críticos, o fim da arte de uma maneira nada relativista. E ainda pior, de uma maneira anacrônica. Criticos estes que idolatravam o lobo da estepe como ícone cult em suas adolescências e agora esquecem o cerne da discussão abordada por Hesse.
O papel da literatura não é dizer o que nunca foi dito e a nova geração de escritores que surge tem cosciência desse fato. Não estou fazendo apologia ao piegas ou a falta de originalidade, pelo contrário, a literatura do novo século que aponta é carregada de sentidos já consolidados. O que é acusado de reprodução, atualmente, é componente de um período em que o acesso à literatura se dá de forma cada vez mais fácil e sem dificultadores. Critica-se a facilidade de publicar pensamentos atualmente, entretanto sempre foi criticada as dificuldades em se expressar e a elitização da arte. Não foi necessário decorar um livro inteiro para que se impedisse que a literatura morresse, a internet já demonstrou contrariamente aos apocalípticos. Pensar de maneira sincrônica é pensar no mundo enquanto tal é hoje, sem desconsiderar o caminho percorrido para o estado atual. Os deuses olímpicos, as grandes musas e a relação com a natureza de hoje são outdoors, prostitutas quaisquer e fumaça esvoaçante juntamente com o que foram outrora. Bartlebys não são personanges de agora, Vila-Matas os aponta ao longo da história da literatura. Talvez eu seja um enquanto escrevo esse texto e uso da reprodução para argumentar sem ter lido referência alguma supracitada e lançado mão do sistema de buscas para lê-los para mim. Escrever atualmente não é escrever perante o vazio, é escrever perante a incerteza. Por que não os ler?