domingo, 15 de maio de 2011

Caio Fernando Abreu como auto-ajuda

Ler Caio F. atualmente é algo que não é mais necessário: para conhecer sua obra basta criar uma conta em uma rede social. Uma onda de novos fãs tem surgido e transformado sua obra em versículos disseminados pela internet. O contexto não é mais necessário, apenas o impacto. Fazendo uma busca rápida encontramos dezenas de contas fake do autor no Twitter transformando sua obra em doses de 140 caracteres. No Facebook se dá da mesma forma: aplicativos te dão uma dose diária de Caio F. sem precisar ter contato algum com a obra do autor. Sem falar em frases colocadas nos perfis ou repetidas como jargão sem reflexão alguma.
Sou a favor da disseminação da cultura e da digitalização de livros. É uma forma eficaz de termos acesso a bens culturais de forma gratuita e prática. O preço de livros no Brasil é alto e pouquíssimas pessoas tem condições de pagar para manter uma boa quantidade de leitura. Uma proposta interessante é o blogue http://semamorsoaloucura.blogspot.com que disponibiliza a obra completa do autor para leitura online.
Ser cult é status atualmente e ser leitor idem. Caio Fernando Abreu é um escritor que está na moda nos últimos anos. Não vejo isso de forma negativa, acho melhor que ele seja lido do que muitas outras coisas que vendem como água. Os textos de Caio são bons, são profundos e muitos mostram preocupações sociais e questões bem atuais. Status é dado por aparência atualmente, conhecimento não anda em alta.
Não vejo grandes problemas em citações. São belas e te instigam a conhecer, mas suspeito que esse mar de citações atuais de Caio não são de leitores ávidos. Comprovamos isso olhando listas de livros mais vendidos no Brasil e não o vendo em nenhuma delas, entretanto o vemos como mais citado em pequenas frases de impacto. A obra é um todo, caso fosse configurada só por trechos, seria publicada dessa forma. Por favor, tenham suas pequenas epifanias, mas tenham refletindo e não enchendo timelines de frases vazias. Caio Fernando Abreu não é auto-ajuda.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Escrever no século do vazio

Depois de tentar a conotação em outros espaços e momentos, venho aqui me lamentar denotativamente. Lamentar sim. Minha namorada mantém um blogue chamado O bonito do cotidiano, poderia até tentar, mas não saberia escrever sobre o bonito do cotidiano. Não digo que o bonito não exista mais ou não se passa em meu cotidiano, entretanto, concordo com Clarice Lispector, escrever é uma pena árdua. Ao chegar ao final da vida, Kafka teve uma espécie de surto e afirmou que não se poderia escrever sobre outro tema que não fosse sobre a escrita em si. Vejo na atitude de Kafka, uma espécie de megalomania típica de grandes escritores que não obteram o reconhecimento esperado em sua época e um sintoma da escritura atual. No romance Bartleby e Companhia, Enrique Vila-Matas, usando como inspiração a personagem singular de Herman Melville, trata de escritores que, segundo ele, carregam a síndrome de bartleby. Esta consiste em uma negação a escrita que pode ser categorizada seguindo vários critérios. Alguns escritores, após a publicação de uma grande obra, simplesmente abandonam a escrita alegando os mais diversos motivos; outros têm muito a falar, entretanto se resignam a nunca publicar obra alguma, alguns negam a própria obra, uma parcela de escritores são copistas ou escrevem apenas notas de rodapé em lugar de uma obra em si. A síndrome de bartleby é facilmente diagnosticada: consiste em uma negação da escrita. O texto de Vila-Matas em si não se passa de uma obra escrita por um narrador detentor de tal síndrome. Seria leviano, reducionista e até contraditório alegar que a literatura atual é representada por milhões de bartlebys.
Pensando de forma pragmática, é impossível não observar uma ruptura paradigmática na literatura que vem surgindo nos últimos decênios. Podemos elencar diversos aspectos em que essa alteração se deu: estético, forma, conteúdo, entre outros. Muitos afirmam fim da literatura, mas tento ser aqui uma espécie de personagem pessoa-livro de Bradbury vendo que a literatura salvará a si mesma e é condicionante na formação social atual e na que virá. O dilema do cultural determinante da sociedade e vice-versa nesse aspecto, eles se encontram imbricados e a literatura segue essa regra. Ítalo Calvino já defendeu com maestria a importância de ler os clássicos e não pretendo me opor a sua tese. No seu primeiro argumento já elimina qualquer possibilidade de refutação: "ler os clássicos é melhor que não os ler". Indago, por que ler os contemporâneos?
Não é necessária uma análise social aprofundada, com critérios científicos extremos e nem ter o maior senso de observação para se diagnosticar a velocidade das transformações na sociedade atual se comparada aos séculos anteriores. Critica-se uma cultura esvaziada ao mesmo tempo que pouco se faz para compreendê-la e pensá-la em suas especifidades. Acusa-se a literatura atual de vazia e procura-se grandes temas ou imagens que guiaram a produção literária universal. Voltando a imbricação da sociedade e cultura, poderia argumentar de forma reducionista que uma sociedade esvaziada é reflexo de uma cultura esvaziada e vice-versa e bastaria o argumento por si só, mas não vou fazê-lo. James Joyce trata de um dia em um volume quase enciclopédico (falando estritamente em dimensão) fazendo pouquíssimas descrições à la estilo pré-modernismo europeu e é considerado gênio. Fala-se em fim da vanguarda tendo essa como ideal a ser atingido para uma valoração artística. O esvaziamento não se dá, o antropocentrismo se exarceba e passa a ser individualismo em graus mais profundos. A reprodução adquire proporções gigantescas e assim afirmam, com olhares maliciosos, os críticos, o fim da arte de uma maneira nada relativista. E ainda pior, de uma maneira anacrônica. Criticos estes que idolatravam o lobo da estepe como ícone cult em suas adolescências e agora esquecem o cerne da discussão abordada por Hesse.
O papel da literatura não é dizer o que nunca foi dito e a nova geração de escritores que surge tem cosciência desse fato. Não estou fazendo apologia ao piegas ou a falta de originalidade, pelo contrário, a literatura do novo século que aponta é carregada de sentidos já consolidados. O que é acusado de reprodução, atualmente, é componente de um período em que o acesso à literatura se dá de forma cada vez mais fácil e sem dificultadores. Critica-se a facilidade de publicar pensamentos atualmente, entretanto sempre foi criticada as dificuldades em se expressar e a elitização da arte. Não foi necessário decorar um livro inteiro para que se impedisse que a literatura morresse, a internet já demonstrou contrariamente aos apocalípticos. Pensar de maneira sincrônica é pensar no mundo enquanto tal é hoje, sem desconsiderar o caminho percorrido para o estado atual. Os deuses olímpicos, as grandes musas e a relação com a natureza de hoje são outdoors, prostitutas quaisquer e fumaça esvoaçante juntamente com o que foram outrora. Bartlebys não são personanges de agora, Vila-Matas os aponta ao longo da história da literatura. Talvez eu seja um enquanto escrevo esse texto e uso da reprodução para argumentar sem ter lido referência alguma supracitada e lançado mão do sistema de buscas para lê-los para mim. Escrever atualmente não é escrever perante o vazio, é escrever perante a incerteza. Por que não os ler?